Coral Michelin Unblog

The world, work and passions of Coral Michelin

Coral Michelin Unblog header image 2

Encontros

October 19th, 2009 · No Comments

Hoje eu conheci o Vitor. Depois de algumas horas na Lapa, bebendo algumas (poucas, juro) cevas com meus amigos do Sul, fui caminhando até a Gomes Freire, de onde pego a Kombi-condução que me deixa na porta de casa.

Eu amo o centro. Adoro as pessoas que vivem o centro. Não aqueles como eu , que não são dali e simplesmente freqüentam uma ou duas vezes na semana com a desculpa da boemia, mas sim aqueles que são o centro, que ali trabalham todos os dias, que vivem da purulência de vida que se multiplica nas doses de cachaça dos botequins sujos de banheiros fétidos. Pessoas de verdade. Também não falo de bandidos. Esses estão por todas partes – e não somente os que dão tiros a queima-roupa pelo próximo FIX… mas meu assunto não são os bandidos…

Enfim, estava eu dentro da Kombi esperando que as pessoas se acumulassem até a lotação máxima do carro, quando entra esse sujeito que se senta bem do meu lado, visivelmente um tanto “perturbado” (talvez alcoolizado). Mas ele sempre com um sorriso de orelha a orelha, entrou fumando um cigarro e, para não perturbar com a fumaça, se espremeu até os ombros na janela do wolks. Quando terminou seu pito, ele se vira para mim e para o cara com toda pinta de pastor evangélico sentado do meu outro lado e começa a falar coisas um tanto quanto disconexas. Eu vi que o padreco do meu lado não tava afim de trela e fazia “sim” com a cabeça na tentativa de despistar o tagarela do outro lado e aquilo me pareceu… sei lá… precipitado. Como fechar uma porta sem nem te-la aberto?? Deixei o tagarela falar, prestando atenção, para ver se suas disconexões se encontravam em algum ponto. Ele dizia que estava tentando organizar os pensamentos, que estava tentando dar um rumo “nas coisas”, “na vida”, e que ele ligava para sua mãe e tudo que ela conseguia dizer é que “Jesus te ama, meu filho”. “Eu ligo pra minha mãe pra pedir ajuda, não financeira, sabe, e tudo que ela me diz é que Jesus me ama!” E fazia um “não” discrédulo com a cabeça. Dizendo tudo sempre com um sorriso aberto no rosto, o sorriso de quem já não tem mais do que rir, a não ser da ironia da própria vida. Não havia nada de disconexo no que falava. Então comecei a conversar com ele. Uma que outra frase, alguma coisa que pudesse servir de alento, de inspiração, que fizesse ele sentir que estamos todos no mesmo barco – todos perdidos buscando um rumo que ainda não sabemos qual é – não importa raça, crença, cor, idade ou posses. Eu me senti igual a ele, Vitor, um cara simples, de fala simples, de feições simples, e de um sentimento tão humano, tão sincero.

Nos apresentamos alguns segundos antes de eu chegar na porta do meu prédio. Ele beijou minha mão, e eu lhe desejei boa sorte. Espero que eu o tenha ajudado, com as palavras que ele não consegue receber de quem espera.

Tags: My life